Um grito que vem de longe ......... 🔊
Rui Ferreira, 14.01.26

Da cadeira do avô ao futuro do Leão.
Lembro-me do avô.
Sentado naquela cadeira, imóvel, a ouvir o relato como quem reza.
— Gooooooolo do Sporting!
Eu era miúdo.
Yazalde, o ídolo.
A fé e a devoção viviam na voz rouca da rádio.
Uma geração inteira — e tantas outras que já cá não estão — cabiam naquele grito.
As memórias são feitas de saudade.
Cada jogo, uma oportunidade.
Cada lance, um fragmento de história.
Cada silêncio, algo que o museu guarda sem vitrinas.
O pai continuou a obra.
O filho levá-la-á mais longe.
Um cordão humano roubou o fogo aos deuses do futebol
e passou-o de mão em mão, em forma de testemunho.
O Universo Leonino sobe as escadas dos valores
e acende, em cada um de nós,
uma esperança que não se apaga.
Na pira do estádio, uma criança vive o presente — tão grande como os maiores da Europa.
Sente o passado que lhe foi contado,
quase sussurrado ao ouvido.
A chama é um futuro reluzente.
Nasce um amor que não se explica:
vive-se.
Sente-se.
Sporting.
A casa mantém o lema.
Uma corrente de ar desfolha o livro pousado na cadeira solitária.
O verde da capa, esbatido pelo tempo,
brilha na eternidade quando o sol nele acorda.
Sou eu que ali estou.
Muitas páginas depois, vinco o canto da folha —
para não esquecer.
Um novo relato começa.
Pego no livro.
Um ego próprio.
Sou mais um testemunho que escreve —
e reescreve — a história.
Era uma vez uma época depois da dobradinha.
E, como em todas as boas histórias,
o começo não foi fácil.
Começámos mal.
Perdemos com o Porto.
Com o Braga, escaparam dois pontos num penálti desnecessário,
arrancado já nos descontos, quando o jogo pedia outra justiça.
Com o Benfica, só jogámos uma parte —
um empate que soube a pouco.
Em Barcelos, claudicámos,
com a colaboração de Gustavo Correia.
O saldo?
Sete pontos de distância para o líder.
E, ainda assim, mais um ponto
do que tínhamos nesta mesma altura da época passada.
A narrativa muda conforme quem a conta.
As lesões surgem como limões:
amargas.
Muitas vezes consequência de entradas a roçar a violência,
quase sempre não sancionadas.
Mas isso raramente se questiona.
Raramente se comenta.
É mais fácil apontar o dedo ao corpo médico,
mesmo sem nada disso se perceber.
Falar mal dá menos trabalho do que pensar.
Temos um treinador campeão.
Um treinador que vence com sobras de colecção.
Antipatias não lhe faltam.
Criaram-se verdadeiras melodias
na arte de mal dizer e, claro, de ofender.
Pouco lhe importa.
É humilde.
Sabe que, nesta coisa do futebol,
é-se “preso por se ter”…
mesmo quando não se tem.
Mais à frente se verá.
A Taça “Charles” — nesta versão recente e apressada — foi bem entregue:
ao maior herói do feito (o seu GR)
e ao clube do conquistador.
Parabéns, Vitória de Guimarães!
Merecidíssimo.
O resto são argumentos, taras e manias.
Segundo a nova escola de pensamento
que transforma derrotas em vitórias,
surgiu mais uma teoria:
“não foi o Braga que ganhou,
foi o Benfica que perdeu”.
Não é análise ao futebol.
É ego narcisista, hipócrita, doentio.
Bendita a Taça que se ergue,
e não é de vermelho.
A verdade é esta:
Chegam jogadores de vários destinos,
em diferentes circunstâncias, para aliviar e ajudar.
Há um presidente que segura o leme.
Um treinador que faz do que tem
milagres de enigmas sem fim.
Um plantel que trabalha unido.
E uma massa adepta
cuja divisão, nos momentos menos bons,
preocupa e aborrece.
Normal.
Dentro do anormal.
É aqui que o livro abranda.
Mas não fecha.
Porque esta história —
como todas as que importam —
exige união.
União no ruído.
União na crítica.
União no aplauso.
Da direcção ao banco.
Do relvado à bancada.
Da velha cadeira do avô
ao lugar vazio que será ocupado pelo filho.
Eu continuo a acreditar.
Não por teimosia.
Por herança e convicção.
Sexta-feira estarei lá.
Na bancada.
Na voz rouca.
No bater descompassado do coração.
Para empurrar.
Para sofrer.
Para vencer.
Para ganhar ao Casa Pia.
Para caminhar rumo ao tri.
Porque esta história ainda se está a escrever.
E escreve-se melhor, quando estamos juntos.
Não quero terminar sem agradecer aos novos seguidores e leitores que chegam.
Até mesmo aos que não comentam,
mas leem e permanecem em silêncio:
obrigado.
Às Terças,
cada presença aqui não é número;
é encontro.
É um lugar onde pretendo chegar
e na escrita encontrar.
Foi a minha expressão. Ao meu estilo… ✍️
Obrigado
SL 🦁





